OLIMPÍADA DE LÍNGUA PORTUGUESA "ESCREVENDO O FUTURO"




Na Memória , Cem anos de Rosas!

Olá, meu nome é Rosilda. Moro na zona rural num sitio chamado Romualdo. Falar desse lugar descrevendo os costumes é uma proeza só dona Rosa dentro de sua história sabe relembrar tão bem.
“ Meu nome é Rosa Maria da Conceição, conhecida por Rosa Pipi ripe, apelido que o meu pai tinha; Rosa Flor, sobre nome do meu segundo marido e Rosa da Conceição nome de batismo. Uma mulher e três rosas! Três rosas para dois cavalheiros.
Nasci no dia 02 de janeiro de 1910. Quando pequena, minha família veio morar nesse sitio que fica algumas léguas da cidade do Crato-CE. Ele é guardadinho no sopé da serra do Araripe. Aqui tudo era belo e natural. Vivíamos humildemente, eu, meu pai e meus seis irmãos. Ao nascer Deus levou minha mãe para o céu. Nosso ganha pão era na roça plantando “mio”, feijão e mandioca .No ano que tinha inverno,tinha colheita. Quando não era só aperreio! Muitas vezes ao invés da gente comer era dado a papai por ter mais coragem pra trabalhar. A gente dormia numa “f ianga” e quando ela se rasgava, dormia no chão batido. A
vida naquele tempo era muito difícil!
Fui trabalhar na cidade aos dezoito anos. Nesse trabalho conheci Zé Neco; meu primeiro namorado e também meu primeiro marido. Nosso namoro foi ligeiro, logo estava nos pés do padre. Casei no mês de nossa senhora. Relembro com saudade a festa do casamento, teve forró no terreiro até o dia “mãicê”. Dançamos até de “feição”-feição é enquanto você dança com todos, ele dança com todas, ao som da “concertina”-instrumento semelhante ao acordeão. Fartura não faltou! Tinha até bolo de goma fresca feito uma semana antes . Tive sorte de criar “feição” por ele, pois antigamente os modos eram diferentes. A moça que estava prometida só via o namorado e futuro esposo no dia do casamento. Mas, tinha moça esperta que furava um buraco na parede para espiar o noivo. Nossa casinha era de taipa e bem aconchegante, com muito verde, muitos bichos, pássaros e olhos d'água. Sou a moradora mais antiga daqui me lembro que as casas eram todas de taipa. Só a igreja de São José era toda feita de tijolo. Atualmente a maioria das casas são feitas de tijolos e tem até uma rodagem asfaltada cortando o sítio.
A minha felicidade com Zé Neco durou trintas anos. Infelizmente fiquei viúva e sem nenhum filho. Dessa união sobraram as alianças e um baú cheio de recordações pra contar . Aos cinqüenta anos e viúva voltei a trabalhar no mesmo local. Neste lugar por força do destino, conheci meu segundo marido. Zé Flor! Logo me “infului” e ele foi o meu segundo esposo. Sem festa e sem bolo! Não lembro quanto tempo durou, mas recordo bem que as alianças foram as mesma do primeiro casamento. Recordo que agente gostava de dançar forró! Antes o forró era mais compassado. A gente dançava assim: dois pra cá e dois pra lá . Relembro que era bonito ver o terreiro cheio de gente dançando iluminados pela lamparina e pela fogueira e não tinha nada mais bonito que o luar da noite para embrilhantar aquela gente. Costumes que deixou saudades!
Passei pouco tempo casada com Zé Flor. Mais uma vez fiquei viúva e nunca tive a sorte de “em preá”. Sempre tive um desejo de ser mãe, mas nunca pude pronunciar. Deus não permitiu! Também não nasci com o dom de aprender a ler. Quando “moçota” pedi a meu pai uma cartilha de ABC pra aprender “bê-a-bá”. Recordo com saudade o que ele disse: Que eu era “brôca” e se não aprendesse levaria uma surra cipó de marmeleiro . Naquela época a escola funcionava na casa do professor. Os “homi” ficava num canto e as “muié” “noutro”. Mas os “argüições” do professor e a ameça do meu pai me perseguiam. Assim, com desgosto rasguei e queimei a cartilha. Somente o “cicidili” ficou na minha memória .
Hoje tenho cem anos e minha memória já está fraca. Mas viva! Alimentado pela saudade dos que já se foram, a saudade do cheiro da chuva que nutria as roças, de ouvir os cantos dos pássaros nas pedras da nascente e cachoeiras quando ia tomar banho e bater roupa. São tantas saudades que guardo do meu passado... Já vivi tanto que hoje tenho um sonho. É ir para o céu ! Descansar dessa vida , encontrar com Deus e meus entes queridos , como ficarei feliz!”
Por muitas vezes contive a emoção ! Resgatei nesses fragmentos as lembranças vivas de dona Rosa . Passado e presente se encontraram entre Rosa e Rosilda . Descobri-me uma nova Rosa, pois terei ainda uma bela história pra contar. Também despertou-me o desejo de continuar cuidando desse belo pedaço de chão que todos os dias tem o privilégio de ser reverenciado pela chapada.

OBS: TEXTOS ESCRITOS A TINTA PELA PROFESORA DE ACORDO COM O TEXTO EM BRAILLE.

Texto escrito por: Rosilda Araújo de Sousa
Série:8º ano “A”
Turno: Tarde
Professora: Joana Dárc Nóbrega
ECOLA DE ENSINO FUNDAMENTAL ESTADO DA PARAIBA
CRATO/CE


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